Ricardo Dias

Fotografar o Eclipse Solar em Segurança

Aug 07, 2026Por Ricardo Dias
Ricardo Dias

A 12 de agosto de 2026, ao final da tarde, Portugal vai assistir a um dos fenómenos astronómicos mais raros que o país já viu: um eclipse solar que, numa pequena faixa do Parque Natural de Montesinho, em Bragança, será total. No resto do território continental, incluindo a região de Lisboa, o eclipse será parcial, mas ainda assim impressionante, com o disco solar ocultado entre cerca de 92% e quase 100%, consoante a localização. Não se via um eclipse total em solo português desde 1912, e o próximo só está previsto para 2144. Se está a pensar fotografar este eclipse, é provavelmente o único que vai ter oportunidade de documentar.

Este artigo está dividido em duas partes. Na primeira, explico com algum rigor técnico porque é que olhar diretamente para o Sol, mesmo parcialmente eclipsado, pode causar lesões oculares permanentes, e porque é que apontar uma câmara sem proteção adequada pode destruir o sensor de imagem em segundos. Na segunda, entro na parte prática: que equipamento usar, que definições de câmara testar, e como preparar a sessão para o dia 12 de agosto.

Parte 1: O que pode correr mal, e porque

O olho humano não está preparado para este fenómeno

A retina não tem recetores de dor. É este o ponto de partida para perceber porque é que olhar para o Sol é perigoso mesmo quando não dói: o cérebro não recebe qualquer sinal de alarme enquanto o dano está a acontecer. O que ocorre chama-se retinopatia solar, ou fotorretinite. A luz concentrada pelo cristalino incide sobre a mácula, a zona da retina responsável pela visão central e pelos detalhes finos, e provoca dois tipos de lesão em simultâneo.

O primeiro é fotoquímico: a radiação ultravioleta e a luz azul de alta energia desencadeiam reações nas células fotorrecetoras que geram radicais livres e danificam a sua estrutura. O segundo é térmico: a radiação infravermelha aquece o tecido da mácula e queima-o, num processo parecido com o de uma lupa a concentrar luz solar num ponto até incendiar papel.

Os sintomas raramente aparecem de imediato. Costumam surgir horas depois da exposição: visão turva ou distorcida, uma mancha escura ou cinzenta no centro do campo visual, alteração na perceção das cores, maior sensibilidade à luz. Em muitos casos a lesão é permanente, porque as células fotorrecetoras destruídas não se regeneram. E mesmo nas fases parciais do eclipse, ou seja, sempre que uma fração do disco solar continua visível, a intensidade de luz que chega à retina é comparável à de olhar para o Sol num dia normal. A Lua tapar 90% ou 95% do disco não reduz o perigo na mesma proporção: os 5% ou 10% que restam continuam a ser luz solar direta, mais do que suficiente para causar dano.

Vale a pena um parágrafo à parte para as crianças. O cristalino infantil é mais transparente e deixa passar mais radiação ultravioleta e infravermelha até à retina, e as crianças tendem a não respeitar, ou a não perceber, instruções de segurança com a mesma disciplina de um adulto. Se vai levar os seus filhos para ver o eclipse, mantenha supervisão direta e constante durante toda a fase parcial.

Não servem para observar o eclipse:

•      Óculos de sol normais, mesmo sobrepostos em vários pares
•      Negativos fotográficos expostos, radiografias ou CDs
•      Vidro fumado ou enegrecido com fuligem de vela
•      Filtros polarizadores de câmara, usados sozinhos
•      Máscaras de soldadura com índice de proteção inferior a shade 14

O único método seguro para observação direta e continuada é usar óculos ou viseiras de eclipse certificados segundo a norma CE EN ISO 12312-2:2015, com a marcação da norma bem visível e sem riscos, furos ou danos no filtro. Em alternativa, a observação indireta por projeção também é segura: um projetor solar caseiro (o clássico furo num cartão) ou a projeção da imagem do Sol através de um binóculo para uma superfície branca, sem nunca olhar diretamente pela ocular.

O que acontece ao sensor da câmara

Isto pode acontecer em segundos, não em minutos. E ao contrário do olho, que pelo menos tem o reflexo de pestanejar e a eventual dor a avisar, mesmo que tarde, o sensor não tem qualquer mecanismo de defesa.

Há um perigo adicional, específico de câmaras com visor ótico, que é a maioria das DSLR: olhar pelo visor sem filtro é, na prática, apontar uma lupa de alta potência diretamente ao olho. A objetiva concentra a luz solar e o pentaprisma reencaminha essa luz concentrada diretamente para o olho do fotógrafo, o que é ainda mais perigoso do que olhar a olho nu para o Sol. Nunca componha ou foque através de um visor ótico sem o filtro solar corretamente montado à frente da objetiva.

As câmaras mirrorless, com visor eletrónico, resolvem este problema específico, porque o olho vê um ecrã e não a luz real. Mas isso não protege o sensor: sem filtro, o sensor continua exposto à luz concentrada e pode ser destruído da mesma forma, mesmo que esteja a compor pelo visor eletrónico ou pelo ecrã traseiro em Live View.

A regra é sempre a mesma, seja qual for o equipamento: o filtro solar tem de estar montado à frente da objetiva, cobrindo toda a abertura frontal, antes de apontar a câmara ao Sol, e só deve ser retirado nas condições muito específicas que explico na segunda parte deste artigo. Um filtro colocado atrás da objetiva, junto ao sensor, ou um filtro ND genérico de baixa densidade, não oferece proteção suficiente: a luz concentrada já danificou os elementos óticos e o sensor antes de lá chegar.

Se em algum momento sentir desconforto visual, visão turva ou uma mancha no campo de visão depois de ter olhado para o Sol, mesmo que brevemente, procure um oftalmologista o mais depressa possível. Não espere que os sintomas passem sozinhos.

Parte 2: Como fotografar o eclipse solar em segurança

Equipamento essencial

Antes de pensar em definições de câmara, garanta que tem o equipamento certo. Não há definição de câmara que compense a falta de um filtro solar adequado.

Um detalhe técnico que vale a pena esclarecer: alguns fabricantes de película solar, como a Baader Planetarium, vendem duas densidades diferentes, uma pensada para observação visual (mais escura, segura para o olho) e outra pensada para fotografia (ligeiramente menos densa, porque o sensor não é tão sensível como o olho e a exposição pode ser ajustada eletronicamente). Nunca olhe diretamente para o Sol através de um filtro fotográfico que não tenha certificação explícita para observação ocular direta. Use sempre um filtro dedicado e certificado para cada finalidade: um para a objetiva, outro, com certificação CE ISO 12312-2:2015, para os olhos.

Definições da câmara

Com o filtro montado, o eclipse fotografa-se essencialmente como qualquer disco solar em modo manual. Os valores abaixo são um ponto de partida, não uma receita fixa: a densidade exata do filtro, a limpeza da atmosfera e a altura do Sol no céu, que em Portugal a 12 de agosto vai estar muito baixo, alteram a exposição necessária. Faça sempre bracketing.

•      Modo: Manual (M), sempre
•      ISO: 100 a 200, o mais baixo possível para reduzir ruído
•      Abertura: entre f/8 e f/11, para maximizar a nitidez sem entrar em difração
•      Velocidade do obturador: ponto de partida na tabela abaixo, depois ajustada por bracketing
•      Foco: manual, ajustado em Live View com zoom digital sobre a margem do disco solar, e depois travado com fita adesiva no anel de foco
•      Estabilização de imagem (IS/VR): desligada, porque está a fotografar com tripé
•      Obturador eletrónico da primeira cortina ou espelho levantado (mirror lock-up), se disponível, para reduzir vibração
•      Formato: RAW, sempre, para ter margem de correção na revelação


A linha da totalidade só se aplica a quem estiver fisicamente dentro da faixa de sombra total, que em Portugal se resume a um troço da estrada entre Rio de Onor e Guadramil, no Parque Natural de Montesinho, durante cerca de 26 segundos. Em qualquer outro ponto do país, incluindo Lisboa, o eclipse mantém-se parcial do início ao fim, e o filtro solar deve permanecer montado durante toda a sessão, sem exceção.

Técnica durante o evento

•      O Sol desloca-se cerca de 0,5° a cada dois minutos: com teleobjetivas longas, isso é suficiente para sair do enquadramento. Reenquadre com regularidade.
•      Em Portugal, a 12 de agosto, o eclipse coincide com o final da tarde, e o Sol vai estar muito baixo no céu, entre cerca de 8° e 12° acima do horizonte, consoante a região. Escolha com antecedência um local com horizonte completamente desimpedido a oeste ou noroeste, sem edifícios, árvores ou serras
•      A luz rasante do final do dia é uma oportunidade de composição: combine o registo do disco solar em teleobjetiva com planos mais abertos que incluam paisagem, silhuetas ou o ambiente à sua volta, à medida que a luz muda
•      Uma sequência temporizada, com o intervalómetro a disparar a cada poucos minutos, documenta bem a progressão do eclipse, além dos registos individuais em grande plano
•      Zonas costeiras como Lisboa ou o Porto podem ter alguma neblina marítima ou nuvens baixas junto ao horizonte a essa hora; tenha um plano B num local ligeiramente afastado da costa, se possível
•      Quem planeia deslocar-se até Montesinho para tentar a totalidade deve ter em conta que o acesso está condicionado pela Ciência Viva, com inscrição prévia obrigatória, e que a janela de totalidade em solo português é de apenas cerca de 26 segundos. Quem procura mais margem costuma atravessar a fronteira até à zona de Zamora, em Espanha, onde a faixa de totalidade é mais larga

O eclipse de 12 de agosto de 2026 em Portugal: horários de referência

Os horários abaixo são de referência e podem variar alguns minutos consoante a localização exata. Para valores ajustados às suas coordenadas, o Programa Nacional do Eclipse disponibiliza cálculos precisos em eclipse2026.pt.

Este é o primeiro eclipse solar total observável em território português desde 1912, e o próximo só está previsto para 2144. Portugal vai ainda assistir a um segundo eclipse relevante a 2 de agosto de 2027, total no sul de Espanha e parcial em Portugal, mas nada substitui a raridade deste evento em particular.

Checklist rápida para o dia
•      Filtro solar montado na objetiva, testado antes do dia
•      Óculos de eclipse certificados ISO 12312-2:2015 para toda a gente presente
•      Tripé, disparador remoto, baterias e cartões extra
•      Local com horizonte oeste desimpedido, confirmado com antecedência
•      Definições em modo manual, foco travado, bracketing preparado
•      Nunca retirar o filtro da objetiva fora da faixa de totalidade confirmada

O eclipse de 12 de agosto vai durar quase duas horas do início ao fim, mas os melhores registos costumam sair de quem chegou cedo, testou o equipamento com antecedência, e passou a tarde a fotografar com calma em vez de correr contra o relógio. Prepare-se, proteja-se, e aproveite: não vai haver outra oportunidade destas em Portugal durante a sua vida.