200 anos depois, a fotografia está viva
Tinha doze anos quando os meus pais me deixaram fechar-me numa casa de banho durante horas a fio. Não foi um castigo, foi a primeira vez que percebi para onde ia a minha vida.
A luz vermelha ligada, o cheiro a revelador e a fixador, a bandeja de plástico onde uma folha de papel em branco começava, devagar, a ganhar sombras, depois formas, depois uma imagem inteira. Lembro-me de ficar a ver aquilo acontecer, sem perceber bem porquê, só a saber que acabara de assistir a um pequeno milagre que se podia repetir sempre que eu quisesse.
Trinta e cinco anos depois, ainda faço basicamente a mesma coisa. Só que a casa de banho é hoje um ecrã, o revelador é um algoritmo, e o milagre já não é assim tão garantido.
Hoje celebra-se o Dia Mundial da Fotografia. Em vez de fazer a lista habitual de datas e de nomes importantes, prefiro contar como se chega até aqui, e porque continuo convencido de que a fotografia, apesar de tudo, está viva. Muito viva.

Doze anos do outro lado da câmara
Comecei a trabalhar como fotógrafo ainda novo, lá pelos 20 anos, algum tempo depois daquela casa de banho, e mantive-me desse lado durante doze anos. Foi ali que aprendi a lição mais importante de todo o meu percurso, e que continua a ser a base de tudo o que ensino hoje: fotografar não é carregar num botão. É decidir o que vale a pena guardar e o que excluir.
Um fotógrafo passa a maior parte do tempo a olhar para coisas que não vai fotografar. Escolhe, descarta, espera. E quando finalmente dispara, está a dizer, com uma certeza que nenhuma outra forma de expressão tem, isto aconteceu, eu estava aqui, e decidi que isto merecia ficar.
Do lado de quem compra
Depois passei para o outro lado da mesa. Dirigi duas publicações portuguesas de fotografia, a Super Foto Prática e o Mundo da Fotografia Digital, e esses anos mudaram-me tanto ou mais do que os anos de fotógrafo.
Num instante já não escolhia só as minhas imagens, escolhia as dos outros, às centenas, todos os meses. Via o que funcionava e o que não funcionava, o que comunicava e o que só parecia bonito, o que ficava na cabeça de quem via e o que se esquecia antes de virar a página.
Essa visão dupla, de quem produz e de quem compra, é provavelmente a coisa mais útil que tenho para dar hoje aos meus alunos. Saber fazer uma boa fotografia e saber reconhecer uma boa fotografia são competências diferentes. Poucas pessoas têm as duas ao mesmo tempo, e ter passado por estes dois mundos é, sem exagero, o que sustenta o meu trabalho de consultoria e de formação até hoje.

Vinte e cinco anos a ensinar a ver
Há mais de vinte e cinco anos que dou formação, no Cenjor, na Escola Profissional Val do Rio, na Academia Inatel, e n'A Narrativa, para mencionar as atuais, e em várias outras salas e instituições ao longo do caminho. Se há uma coisa que aprendi a ensinar bem, não foi a regra dos terços nem o poder do centro, nem a relação entre abertura e velocidade de obturador. Foi a atenção: essa exigência silenciosa, mais difícil de ensinar do que qualquer regra técnica.
A técnica aprende-se num fim de semana bem orientado. A atenção, a disponibilidade para reconhecer um momento antes de ele desaparecer, é trabalho de uma vida inteira. E é isso que separa quem tira fotografias de quem faz fotografia.
O que a fotografia guarda
É aqui que quero parar, porque é o cerne de tudo isto.
Uma fotografia é uma prova. Não uma ilustração, não uma aproximação: prova de que a luz de um determinado momento, num determinado sítio, tocou de facto numa película ou num sensor. Pode parecer um detalhe técnico, mas é o contrário. É a razão pela qual as fotografias de família se guardam em caixas durante gerações. É a razão pela qual uma fotografia de guerra pesa de uma forma que nenhuma pintura de guerra consegue pesar. É a razão pela qual, quando alguém morre, a família procura primeiro fotografias, e não descrições.
A fotografia é a nossa forma mais honesta de dizer a quem vem depois de nós: isto existiu, estivemos aqui, isto aconteceu assim.
Hoje fotografo os meus três filhos a crescer e as gatas a dormir ao sol pela mesma razão que fotografava desconhecidos na rua há trinta anos. Não é nostalgia. É a tentativa, sempre um pouco vã, de segurar um momento que já está a fugir enquanto o disparo acontece.
Não é só prova, é também olhar
Mas reduzir a fotografia a documento seria injusto para com ela.
O facto de a luz ter tocado num sensor não explica porque é que uma fotografia nos comove e outra, do mesmo instante, do mesmo sítio, nos deixa indiferentes. Isso já não é prova, é escolha. É o enquadramento que inclui uma coisa e corta outra, é a luz que se espera ou se procura, é a fração de segundo em que se decide disparar e não meio segundo antes nem meio segundo depois.
A fotografia é, ao mesmo tempo, testemunho e interpretação. Regista algo que aconteceu de facto, mas fá-lo sempre através de um olhar específico, com as suas escolhas, as suas obsessões e o seu gosto. É por isso que a mesma rua, fotografada por dez fotógrafos diferentes, resulta em dez fotografias diferentes, todas verdadeiras e todas distintas. É essa combinação que faz da fotografia uma arte, e não apenas um registo.

O ecrã de hoje
E chego assim ao ecrã, e ao desafio que hoje se põe à fotografia como nunca se pôs.
Em português, "revelar" tem um duplo sentido bonito: é o processo químico, e é também tornar visível algo que já existia, mas estava escondido. Era isso que acontecia numa câmara escura. A imagem já lá estava, latente, na película. O revelador não a inventava, apenas a tornava visível.
Uma imagem gerada por inteligência artificial não revela nada. Não parte de nenhuma luz que tenha tocado em qualquer filme, em qualquer sensor, não corresponde a nenhum momento que tenha existido em lado algum. É uma imagem sem origem, e isso é uma diferença de natureza, não de grau.

Não estou a dizer que essas imagens não têm valor, bem pelo contrário. Têm, e vão continuar a ter, sobretudo na ilustração, na publicidade, na criação de mundos que nunca precisaram de existir para serem utilizáveis. Mas confundir isso com fotografia, com o ato de testemunhar algo que aconteceu de facto, é perder de vista a única coisa que sempre distinguiu este meio de todos os outros.
O risco real não é a inteligência artificial substituir a fotografia. É diluirmos, por cansaço ou por comodidade, a distinção entre as duas, até deixarmos de perguntar isto aconteceu mesmo, e passarmos a aceitar isto parece que aconteceu como suficiente.
O que não muda
E ainda assim, sou positivo.
Não porque ache que a tecnologia se vai comportar bem sozinha, mas porque a fotografia já sobreviveu a mudanças de ferramenta muito maiores do que esta, e sobreviveu sempre porque nunca dependeu da ferramenta.
Sobreviveu à passagem do vidro para a película, da película para o sensor digital, do estúdio para o telemóvel que toda a gente traz no bolso. Sobreviveu porque o impulso que a sustenta, o de apontar para alguma coisa e dizer isto importa, quero guardar isto, não é uma função de qualquer equipamento. É humano, e continua a ser humano mesmo quando a máquina à volta muda por completo.
Enquanto houver alguém disposto a esperar o momento certo, sabendo que ele vai passar, e a decidir que aquele instante específico merece ficar, a fotografia continua viva. Para mim, vai sobreviver ao meu tempo humano, até residir como património da humanidade, de todos e de cada um de nós.
É importante referir, neste dia em particular, que a primeira fotografia reconhecida é uma imagem produzida em 1826 pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, View from the Window at Le Gras.

Trinta e cinco anos depois daquela casa de banho na Rua Pedro Nunes, é ainda essa a pergunta que me move, e que continuo a tentar passar a quem ainda se dá ao trabalho de me ler ou ouvir. Não como se faz a fotografia tecnicamente perfeita, mas o que vale a pena guardar antes que desapareça. E essa pergunta, essa, nunca vai deixar de se colocar.
Feliz Dia Mundial da Fotografia
