Ricardo Dias

Autenticidade das imagens na era da IA

Jan 12, 2026Por Ricardo Dias
Ricardo Dias

A discussão atual sobre a autenticidade das imagens na era da IA (Inteligência Artificial) tem um núcleo técnico bem definido: padrões de proveniência como o C2PA e as Content Credentials, fluxos de captura autenticada em câmara e protocolos de verificação em concursos e redações.

Este artigo parte de uma premissa simples, mas relevante: sou fotógrafo e fui jornalista. Em ambos os papéis, este tema não só me interessa como me preocupa. E bastante.

Fundamentos técnicos: C2PA e Content Credentials

Do ponto de vista técnico, o padrão C2PA define uma forma normalizada de associar a cada ficheiro um manifesto de proveniência, assinado criptograficamente, que descreve como aquele conteúdo foi criado e editado.

Esse manifesto inclui informação sobre o dispositivo de captura, hashes criptográficos que ligam os píxeis ao manifesto e uma cadeia de ações que pode incluir captura, recorte, ajustes tonais, uso de ferramentas de IA, entre outros. Tudo isto é encapsulado num bloco de dados que acompanha o ficheiro, por exemplo embebido num JPEG.

As Content Credentials são a materialização prática deste conceito para criadores e meios de comunicação. Funcionam como um rótulo digital, baseado no C2PA, que regista quem criou o conteúdo, quando, com que câmara ou software, que alterações foram feitas e se houve uso de IA generativa ou apenas IA de melhoria.

Na exportação a partir de software compatível, como o Adobe Photoshop, Adobe Lightroom ou SmartFrame, ou o Photo Mechanic é escrito um manifesto C2PA assinado nos metadados do ficheiro, contendo a identidade do autor, o histórico de edição e, cada vez mais, a indicação explícita das ferramentas de IA usadas no processo.

Exemplo de ativação de Content Credentials no Adobe Photoshop

Estas credenciais podem depois ser verificadas através de ferramentas abertas, como o verificador do site Content Credentials, ou através das bibliotecas e SDKs da Content Authenticity Initiative, que validam a assinatura e apresentam uma timeline da edição e do uso de IA.

Do ponto de vista da segurança, o objetivo não é tornar a falsificação impossível. O objetivo é reduzir drasticamente o espaço para a negação plausível. Se um ficheiro chega sem manifesto, ou com um manifesto adulterado, o sistema assinala isso como potencialmente suspeito.

Ecossistema de soluções atuais

Para além do núcleo C2PA e Content Credentials, tem-se formado um ecossistema de soluções complementares, sobretudo orientadas para fotografia e, em menor escala, para vídeo.

À data de hoje, janeiro de 2026, o panorama é relativamente claro: existem poucas câmaras com Content Credentials totalmente operacionais ao nível da captura. Algumas já com firmware lançado, outras apenas anunciadas. A maior parte da adoção continua a acontecer via software, com destaque para os referidos anteriormente.

Leica

A Leica foi pioneira. A M11-P, lançada em 2023, foi a primeira câmara do mundo com Content Credentials integradas de forma nativa. Cada imagem pode ser assinada com um certificado associado a um chip seguro e a um certificado de dispositivo emitido pela Imprensa Federal Alemã. As credenciais são verificáveis através de ferramentas públicas.

Leica SL3-S
Leica SL3-S

Em janeiro de 2025, a Leica alargou este suporte à SL3-S, a primeira câmara do sistema SL com Content Credentials integradas. O utilizador pode ativar ou desativar esta funcionalidade no menu, e quando ativa são escritos metadados invioláveis com modelo, autor, data de criação e, posteriormente, dados de edição.

Apesar de existirem referências a futuras extensões para outros modelos, como variantes da Q3, até ao momento os únicos modelos oficialmente confirmados com Content Credentials de raiz são a M11-P e a SL3-S.

Nikon

A Nikon deu um passo decisivo com a Z6III. O firmware 2.00, lançado em agosto de 2025, adicionou compatibilidade com C2PA e Content Credentials. Este firmware permite capturar imagens com proveniência ativada e integrar esses ficheiros em fluxos de trabalho testados com agências noticiosas, como a AFP, onde o manifesto C2PA é verificado desde o disparo até à publicação.

Nikon Z6III

Apesar de a Nikon já ter anunciado, em 2024, a intenção de expandir este suporte a outros modelos, até janeiro de 2026 a Z6III continua a ser claramente o corpo piloto desta tecnologia no ecossistema Nikon.

Sony

A Sony tem atualmente o ecossistema mais maduro neste domínio. Desde 2024, vários modelos da linha Alpha suportam Content Credentials via firmware, incluindo a Alpha 1, Alpha 7S III, Alpha 7 IV e Alpha 9 III. Estas atualizações continuam válidas e disponíveis, sendo a base da adoção de C2PA no universo Sony até ao momento.

Sony Alpha 1
Sony Alpha 1

Saiba mais sobre esta tecnologia, Camera Authenticity Solution.

Fujifilm

A Fujifilm anunciou planos para trazer Content Credentials às linhas GFX e X, incluindo modelos como a GFX100S II. No entanto, até agora, a informação pública é fragmentada e não existe uma lista consolidada de modelos com firmware C2PA já disponível, como acontece com a Sony ou a Nikon.

Canon

A Canon é membro da CAI e do consórcio C2PA e tem vindo a testar Content Credentials em parceria com a Reuters e outros parceiros jornalísticos. Existe um compromisso público de integrar esta tecnologia em modelos futuros, mas até janeiro de 2026 não foi anunciado nenhum modelo comercial com suporte completo para utilizadores finais. Tudo indica que 2026 será o ano dessa estreia.

Smartphones

No universo mobile, a plataforma Qualcomm Snapdragon 8 Gen 3 integra suporte para Content Credentials em colaboração com a Truepic. Isto permite adicionar proveniência a fotografias e vídeo captados em smartphones, embora a implementação dependa de cada fabricante e das aplicações de câmara utilizadas. Ainda assim, este é hoje o principal vetor de adoção de Content Credentials em dispositivos móveis.

Concursos e comunidades fotográficas

A CAPA, Canadian Association for Photographic Art, adotou um modelo explícito de verificação baseado em Content Credentials, cruzando C2PA com ferramentas de deteção de IA e métodos clássicos como análise RAW e pesquisa inversa. O objetivo é garantir que as imagens premiadas cumprem regras claras sobre o uso de IA.

CAPA

Este modelo inclui guias de fluxo de trabalho para fotógrafos e promotores, orientando a ativação de Content Credentials em software compatível, a preservação de metadados e a utilização de ferramentas de verificação.

Redações e jornalismo

No jornalismo, projetos como os da BBC R&D exploram pipelines de vídeo com “carimbos” C2PA e ferramentas que permitem aos jornalistas verificar credenciais antes da publicação, aplicando ao vídeo a filosofia que já se começa a consolidar na fotografia.

BBC

Autenticidade em fotografia profissional e fotojornalismo

A fotografia profissional, e em particular o fotojornalismo, está no centro desta transformação porque a confiança faz parte do produto. Uma fotografia noticiosa só tem valor se for credível.

O caso recente da AFP, que utilizou uma câmara Nikon protótipo durante as eleições nos Estados Unidos, é emblemático. Cada fotografia foi captada com um certificado C2PA embebido, criando uma cadeia auditável desde a captura até à publicação.

Neste fluxo, a câmara gera um manifesto com informação sobre corpo, lente, momento de disparo e um hash da imagem, assinado por uma chave associada ao fabricante ou à agência. O ficheiro segue depois para um servidor seguro, é editado segundo políticas editoriais claras, e as versões finais mantêm uma referência criptográfica ao original.

Ferramentas de marca de água invisível, como as usadas pela IMATAG na solução da AFP, acrescentam uma camada adicional de proteção. Mesmo que o ficheiro seja regravado e os metadados removidos, a marca de água permite associar a imagem à sua origem legítima.

IMATAG

Para o fotojornalista individual, os fluxos promovidos pela Content Authenticity Initiative, combinando câmaras compatíveis e software, apontam para um cenário em que o fotógrafo ativa as Content Credentials na captura, preserva-as na edição e publica imagens com um ícone de credenciais que qualquer leitor pode inspecionar.

Esse “pin” funciona como um selo visual. Ao ser clicado, revela a timeline de captura e edição, ajudando o público a distinguir entre fotografia documental tratada dentro de limites éticos e imagens sintéticas ou manipuladas para além desses limites.

Organizações como a CAPA procuram proteger a integridade de categorias documentais e de fotojornalismo em concursos, definindo claramente o que é IA de melhoria e o que constitui IA generativa, proibida em determinadas categorias. O processo de verificação cruza Content Credentials, análise forense clássica e classificadores de IA, reconhecendo que nenhum método isolado é infalível.

O caso da World Press Photo é particularmente ilustrativo. Num curso recente que tive oportunidade de ministrar, no Cenjor, este exemplo foi amplamente discutido.

A manipulação de imagens sempre existiu, desde os tempos de Trotsky apagado das fotografias oficiais, por ordem de Lenine. Para evitar equívocos, a World Press Photo implementa hoje regras de verificação rigorosas, complementadas por materiais pedagógicos claros e acessíveis, incluindo vídeos curtos e esclarecedores.

León Trotsky foi o homem eliminado nesta imagem de Lenine. A cisão entre ambos teve lugar em 1923. Trotsky foi retirado de várias outras fotografias.
León Trotsky foi o homem eliminado nesta imagem de Lenine. A cisão entre ambos teve lugar em 1923. Trotsky foi retirado de várias outras fotografias.

Desafios e dilemas em ambiente de IA

Apesar dos avanços técnicos, os problemas de fundo mantêm-se. A fronteira visual entre fotografia e imagem gerada continua a estreitar-se, e os incentivos à manipulação, sejam políticos, económicos ou reputacionais, são enormes.

Deepfakes e imagens totalmente sintéticas com aparência fotográfica circulam rapidamente nas redes sociais, muitas vezes desligadas de qualquer cadeia de proveniência verificável. Isto limita o alcance prático do C2PA quando os criadores sem escrúpulos simplesmente optam por não aderir ao padrão.

Além disso, a crescente integração de IA na captura e edição levanta questões profundas sobre autoria e estilo. Até que ponto um fotógrafo que delega focagem, enquadramento ou mesmo composição a sistemas automáticos continua a ser autor no sentido clássico?

Existe também o risco de uniformização estética e de dependência excessiva de modelos e predefinições, com perda de linguagem pessoal e de sensibilidade documental.

No fotojornalismo, a dimensão ética e deontológica é particularmente crítica. Mesmo com C2PA, é possível construir narrativas enganosas através da seleção de imagens ou de legendas manipuladoras. A tecnologia de proveniência acrescenta transparência ao “como” a imagem foi feita, mas não resolve o problema do contexto nem substitui a ética profissional e a verificação editorial. As pessoas continuam a ser a peça central do sistema.

Por fim, há o desafio da adoção. Enquanto grandes agências, fabricantes e plataformas editoriais convergem para o C2PA, muitos fotógrafos freelancers, pequenos meios e criadores independentes ainda não integram estas práticas no seu quotidiano. A CAPA reconhece bem esta fase transitória, propondo uma combinação de práticas tradicionais e novas até que o padrão esteja plenamente disseminado, o que poderá levar ainda vários anos.

Conclusão: entre selo técnico e confiança social

As soluções atuais para a autenticidade de imagens em ambiente de IA assentam num tripé: padrões abertos de proveniência, integração na origem e protocolos de verificação em concursos e redações.

Do ponto de vista tecnológico, este tripé permite criar imagens com rótulos de origem verificáveis, tornando muito mais difícil falsificar ou negar manipulações sem deixar rasto, sobretudo em contextos controlados como o fotojornalismo profissional.

Mas, no fim de contas, a autenticidade continua a ser uma construção técnica, social e ética. A tecnologia ajuda muito. A confiança, essa, continua a depender de quem está atrás da câmara e de quem decide publicar.